A primeira onda do elearning chegou ao fim (postagem anterior); é a segunda onda que nos levará ao tão esperado repensar do ensino como um todo.
A segunda onda provocada pelo elearning será orientada pela aceitação de uma realidade simples: apenas uma pequena parcela do que aprendemos vem da educação formal; o resto nós aprendemos fazendo, consultando manuais, vendo o que os outros fazem, conversando no café, procurando na internet, lendo ou perguntando para quem sabe. Cada vez será mais difícil saber de antemão tudo aquilo que precisamos utilizar, num certo momento, para resolver um problema complexo (definido como um problema formado por grande número de componentes). Quando você vai ao médico, você já percebe isso: o doutor faz um diagnóstico inicial e sai correndo atrás de evidências que permitam chegar a um diagnóstico definitivo (a chamada “medicina baseada em evidências”). Como conseqüência, vem se firmando a primazia do “know-where” sobre o “know-how” e o “know-what”, o que vai fazer com que o ensino formal tenha que mudar e com que o apoio à aprendizagem informal tenha que crescer de forma fantástica.
George Siemens, mais um realista que um futurista, vem chamando a atenção para a “ecologia da aprendizagem”, que vê a aprendizagem com uma resposta às mudanças do ambiente, e para o que ele chama de “conectivismo”, a aprendizagem no dia-a-dia através de redes de relacionamento (o conhecimento está na rede e nós temos que aprender como ir buscá-lo). Não tenho dúvidas de que é por aí que a coisa vai acontecer: cursos curtos, repositórios de informações dirigidos, grupos de prática e formas de encontrar quem-sabe-aquilo-que-eu-preciso (talvez um kazaa ou um morpheus que, ao invés de músicas, permita a você encontrar informações específicas guardadas nos computadores de uma rede).
Mas tudo acontecerá de fora para dentro das instituições de ensino; as universidades são grandes e lentas para mudar e a regulamentação impede muita coisa de acontecer. O que vai forçar a mudança é o novo tipo de demanda de conhecimento; sim, existe oferta e demanda nesse campo, por mais anatematizada que seja a palavra mercado.
As empresas já estão analisando a adequação do tipo de treinamento que elas oferecem a seus funcionários e do tipo de cursos externos que elas pagam para eles. Ainda mais importante é o fato de elas estarem aprofundando a definição de competências. Afinal, experiência – na acepção antiga – era a capacidade de repetir o passado que deu certo mas qual o valor exato disso num momento em que tudo muda rapidamente? Essa percepção vai alterar o conceito de empregabilidade com sérios efeitos na demanda de formação. O que será mais valorizado pela empresa: um doutorado ou um uma série de cursos curtos, independentes, bem focados e com grande grau de profundidade?
E há todo um outro lado…A leitura apressada do construtivismo tem tido efeitos perversos significativos. De repente ficou feio ser professora e ficou feio ensinar. A professora virou tia, mediadora, tutora, conteudista e expressões como “ensino a distância” são cuidadosamente evitadas e substituídas por “educação a distância”. Como é o aluno que tem que aprender e não o professor que tem que ensinar, criou-se uma perigosa zona de vale-tudo.
O fato de se recusar a figura do professor como a mãe-pássaro que lê livros e despeja o resultado na boca dos filhotes não significa que o professor não tenha um papel maior na aprendizagem. Na segunda onda, o professor deverá, antes de mais nada, ensinar o aluno a aprender e deverá apoiá-lo nessa tarefa através da construção de ambientes de aprendizagem favoráveis. Isso é muito mais do que o que ele faz hoje e exigirá um esforço muito maior mas, aí, continuará a haver um grande espaço para que o professor apresente e defenda suas idéias já que a tecnologia de comunicação permite uma ampla reflexão participativa sobre elas. Só que não mais bastará, como hoje, o professor estar na sala de aula: ele terá que saber usar a tecnologia que está à sua disposição e que aumenta a cada dia. Muito mais trabalho pelo mesmo salário? Mesmo que assim seja, não haverá como fugir dessa realidade!
A segunda onda será um caso típico de rabo que abanou o cachorro: o elearning forçando a mudança dos paradigmas de ensino através de um reposicionamento do ensino formal, da aprendizagem informal e da atuação dos professores. Isso vai demorar? Olhe à sua volta, veja o que já está acontecendo e calcule bem o esforço a ser feito para poder surfar a onda ao invés de ser atingido por ela!
Até a próxima semana; enquanto isso, veja as notas sobre pedagogia publicadas em www.dynamiclab.com
Junho 6, 2006 às 2:27 am
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Junho 18, 2006 às 11:00 pm
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