Posts de Maio, 2006

A Falácia da Resistência à Mudança

Maio 9, 2006

Você não resistirá a uma mudança que lhe traga maior salário com menos trabalho mas resistirá a uma mudança que o tire de sua zona de conforto com perda de dinheiro, poder ou segurança. Fica, assim, claro que as pessoas não resistem à mudança mas, sim, às perdas que a mudança possa lhes causar, sejam elas reais ou imaginárias. 

Freqüentemente, quando da análise da implantação de um projeto, ouve-se alguém dizer: “como já prevíamos, ocorreu resistência à mudança…”. Se isso era previsto, por que não foram tomadas as providências para evitá-lo? É o mesmo tipo de discurso de alguém que, atrasado em São Paulo, diz: “desculpem, mas o trânsito estava péssimo!”. Em São Paulo o trânsito está permanentemente péssimo e isso tem que ser levado sempre em conta.  

Não há, pois, nada de inesperado quando as pessoas reagem à perspectiva de perda. Se uma mudança vai gerar perdas reais para um grupo de pessoas, esse grupo tem que ser analisado com muito cuidado. A primeira pergunta a ser feita é se há alguma possibilidade de negociação para compensar as perdas. Em caso negativo, há que analisar se o grupo que perde tem poder ou influência suficiente para bloquear ou prejudicar o projeto.  Todo o dia vemos isso acontecer no Legislativo, com projetos sendo adiados ou modificados para se tornarem viáveis. Em outros casos, o que existe é falta de informação. A existência do projeto começa a ser divulgada pela rádio peão e a coisa, rapidamente, foge de controle com os mais conservadores achando que vão perder, os mais centrados querendo saber mais a respeito e os otimistas, geralmente poucos em nossos dias, achando que vão sair ganhando. Na medida em que a informação demora, meras hipóteses passa a ser verdades pessoais, o lado mau da força acaba por se impor e o circo está armado. Não raro, um circo de horrores… 

Beckhard & Pritchard resumem isso muito bem em sua “fórmula da mudança”que diz que uma mudança só será bem sucedida quando

P+D+C>R       

onde:

P = insatisfação com a situação presente (porquê)
D = perspectiva de como as coisas ficarão depois da mudança (o que)
C = conhecimento dos elementos e passos que formam o plano/processo de  mudança (como)
R (resistência à mudança) = percepção do custo da mudança para indivíduos e grupos 

A experiência a respeito mostra que:

-só uma insatisfação grande gera apoio a esforços expressivos de mudança
-a mudança será menos difícil se o número de insatisfeitos for grande              
-a falta de clareza quanto ao modelo pós-mudança é fonte de resistências
-a percepção de que o futuro será melhor do que o presente gera entusiasmo e reduz o medo
-subestimar os recursos de tempo, comunicação etc. necessários à mudança pode levar ao caos. 

Kurt Lewin acredita que a mudança  acontece em 3 etapas:     
         
-descongelamento = reconhecimento da necessidade de mudar
-mudança = adoção de novas maneiras de ver e/ou fazer as coisas               
-recongelamento = estabilização do novo comportamento.

Nesse processo:

-as pessoas não mudam só porque acham satisfatórias as explicações sobre a necessidade de mudar
-as pessoas não mudam só porque descobrem as conseqüências negativas de não mudar
-as pessoas não mudam só porque a organização resolveu mudar
-as pessoas, com freqüência, buscam manter seus modelos mentais mesmo em presença de fortes evidências contrárias a eles
-as pessoas não mudam sós; elas precisam perceber que os companheiros estão mudando e que sua mudança será bem aceita pela nova cultura. 

Para Lewin, não  basta mudar a maneira pela qual as pessoas fazem as coisas; é preciso mudar os valores que as levavam a ter o comportamento anterior. Assim, a mudança deve ser vista como um processo de reeducação no qual se busca criar novos valores, crenças e cultura para a organização. 

O texto é curto; talvez valha a pena ler de novo!

Conectivismo e aprendizagem: do aprimoramento ao rompimento

Maio 1, 2006

Georges Siemens, o evangelista do conectivismo, destaca a mudança da relação da pessoa com o conhecimento. Em grande número de casos, não é mais possível ter, antecipadamente, todo o conhecimento de que se necessita para resolver um problema pontual; é preciso saber onde o conhecimento adicional está e ir buscá-lo. Nesse quadro, o que importa para a pessoa é sua rede de conexões com os nós de conhecimento.

Impossível deixar de usar como exemplo a medicina moderna. Quando havia menos doenças conhecidas e menos medicamentos disponíveis, o clínico geral ia direto ao ponto: você tem isso e o tratamento é esse; o clínico moderno identifica a área de problema, prescreve um tratamento inicial, recorre a uma rede de conexões (laboratórios clínicos, centros de imagem médica etc.) e, através do conhecimento de outros, obtém as informações de que necessita para “pontualizar”o mal.

Siemens provoca ao afirmar que a habilidade de aprender o que vamos precisar amanhã é mais importante do que aquilo que sabemos hoje ou quando diz que o cano é mais importante do que aquilo que corre dentro dele. Mas, ao dizer que aprender é o processo de conectar nós e fontes de informação, ele nos obriga a analisar profundamente nossas crenças básicas sobre educação; será que existe uma ampla percepção de que novas meta-competências têm que ser desenvolvidas em todos os níveis da aprendizagem? Algumas delas são:

 - a competência de analisar e avaliar a credibilidade das informações obtidas na rede, seja esta baseada em computadores, comunidades de prática ou em cadernos de endereços – a competência de criar ambientes que facilitem a aprendizagem informal que é mais corrente que a aprendizagem formal – a competência de formar redes pessoais para fazer com que a experiência individual total seja a soma de experiência individual propriamente dita com a experiência daqueles com os quais o indivíduo está conectado – a competência de aproveitar com o fato de que a aprendizagem é um processo contínuo que se estende por toda a vida – a competência de estabelecer conexões entre idéias, conceitos e campos do conhecimento de forma tal que a informação obtida num nó da rede possa ser aplicada em outro contexto (transferência de conhecimento) – a competência de escolher o que aprender.

A busca do desenvolvimento de competências como as que vêm de ser mencionadas reconhece o fato de que o processo de aprendizagem é nebuloso, confuso, informal e caótico e impõe uma revisão da forma pela qual eventos e programas de aprendizagem são desenhados. Para tanto, não basta ter tecnologia disponível; é preciso ousar no seu uso. Afinal, como comentado no blog de Siemens (http://www.connectivism.ca), o computador está aí há décadas mas isso não faz com que nosso filhos recebam nas escolas um ensino fundamentalmente diferente daquele que nós lá recebemos…

A discussão do conectivismo reforça o conteúdo das duas postagens anteriores: o momento presente não é mais de aprimoramento (usar a tecnologia para fazer melhor o que já se vinha fazendo) mas, sim, de rompimento (criar novos paradigmas viabilizados por novas tecnologias). Quem se habilita?