Integração dos Conhecimentos e Teoria dos Sistemas: o Par Ideal

By marcostelles

É possível tirar do papel o discurso da integração dos conhecimentos? Mais que possível, é necessário mas isso dá muito trabalho e exige grande empenho pessoal! 

O caminho começa com a adoção do conceito de  sistema:  sistema é uma entidade caracterizada pelas interações mútuas entre seus componentes. A palavra chave, aí, é interação; analisar apenas os componentes descaracteriza o sistema que é formado, também, por interações. O que fica de fora é chamado de ambiente do sistema.  Essas interações incluem diferentes relações de causa-efeito (produzir, influenciar, reduzir etc.).

Nos sistemas cujo estado muda com o tempo, chamados de sistemas dinâmicos, é típica a presença da situação na qual o efeito causado por A sobre B num certo momento vai fazer com que B cause um efeito sobre A num momento posterior, o que se denomina causação circular (causal loop).  

Uma das característica dos sistemas dinâmicos é que uma causa pode ter muitos efeitos e um efeito pode ter muitas causas. Isso ganha especial importância nos chamados sistemas complexos, aqueles sistemas que têm um conjunto de interações conhecido mas de tal forma complexo que não permite a previsão de comportamento. Aí, cada componente age sem levar em conta o objetivo global o que acaba por gerar a emergência de fenômenos que não podem ser previstos a partir da análise de componentes e interações. 

Um sistema complexo adaptativo (muitas vezes representado pela sigla CAS, correspondente a complex adaptive system) é o sistema complexo que consegue se adaptar a mudanças do ambiente externo.  

A partir da idéia de sistemas, caminha-se para os conceitos de complexidade e caos que oferecem um novo paradigma, aquele da indeterminação (no qual o comportamento é indeterminado), para substituir o medieval paradigma mecanicista (no qual o comportamento é considerado previsível como aquele de uma máquina). No caos, o comportamento é conhecido mas pequenas variações nas condições de entrada causam grandes variações nas condições de saída o que, na prática, torna imprevisível  o comportamento global do sistema. 

Da visão de mundo segundo o paradigma da indeterminação, decorrem novos modelos para o estudo da mudança, da estratégia, da solução de problemas, da tomada de decisões, do ensino e de muita coisa mais. 

Para o ensino, a teoria dos sistemas oferece uma linguagem integradora, gráfica, centrada em diagramas causais, a dinâmica de sistemas (com modelos conceituais e simulações quantitativas), e novos procedimentos de análise, o pensamento sistêmico, ambos permitindo a concreção de conceitos na forma de aplicações práticas de integração de conhecimentos e contribuindo para a adoção de novos hábitos de pensar. 

Se os conceitos são claros, a literatura é abundante e se ferramentas e exercícios podem ser baixadas gratuitamente na internet, o que falta para  incorporar tudo isso às práticas de ensino correntemente adotadas por aqui?  Na universidade, analisar problemas como sistemas dinâmicos leva a um enfoque multidisciplinar que se choca com a sedimentada estrutura departamental; o treinamento empresarial tende a ser surpreendentemente conservador; no ensino fundamental e médio, uma perversa combinação de baixos salários, sobrecarga de trabalho e dificuldades de comando age contra a tomada de novas posturas por parte dos professores. 

Há, contudo, alguns indícios de que isso possa mudar: 
- faculdades novas e cursos a distância precisam mostrar-se diferenciados (não serem mais um) e adequados à realidade vigente (falar do mundo real e não daquilo que já passou)
- o ambiente de mudanças rápidas faz crescer a busca por treinamentos relacionados com problemas da empresa real e não da empresa ficcional ainda apresentada por tantos livros
- exemplos externos extremamente interessantes, como aquele do K-12 dos Estados Unidos, mostram a viabilidade e a importância de familiarizar crianças com conceitos e práticas sistêmicas o que, além de seu valor intrínseco, prepara e dá suporte à adoção de tecnologia educacional. 

Um cenário possível é aquele de se pensar que escolas novas e cursos a distância, mais flexíveis e com maior vocação para  inovar o ensino, descobrirão o poder dos conceitos e práticas sistêmicas tanto no que se refere à diferenciação quanto ao que se refere aos resultados de aprendizagem; o treinamento empresarial seguirá caminho paralelo, forçado pela demanda de um mercado que quer respostas rápidas e atualizadas para seus problemas; no ensino fundamental e médio, as escolas perceberão que a inevitável adoção de tecnologias educacionais não é algo a ser acrescentado ao que se faz mas, sim, algo a ser acompanhado por uma profunda reflexão sobre aquilo que se quer ver o aluno aprender, o que passa pelo aprender-a-aprender propiciado pelos conceitos e práticas sistêmicas  Os principais fatores para que isso tenha sucesso são a firme decisão institucional de mudar e o total apoio aos professores para que a mudança ocorra – duas coisas difíceis, que dão muito trabalho e exigem enorme persistência. Mas a triste alternativa é ver tudo ficar como está. 

Rezar para que tudo isso aocnteça logo pode ser um caminho mas, certamente, será mais eficiente aprofundar-se no tema, divulgar o muito que ele tem a oferecer e partir apr sua aplicação. Seria uma pena perder, mais uma vez, o foguete da melhoria do ensino.

3 Respostas para “Integração dos Conhecimentos e Teoria dos Sistemas: o Par Ideal”

  1. Cesar Nunes Disse:

    Marcos, parabéns por trazer à tona esse tema importante. Você menciona os trabalhos de fora do Brasil. Sugiro para quem tiver fluência em inglês o site http://www.clexchange.org (The Creative Learning Exchange). É uma das melhores fontes sobre pensamento sistêmico no K-12. Para aqueles que não lêem em inglês sugiro dar uma olhada no livro do Peter Senge e colaboradores “Escolas que Aprendem” publicado pela Artmed.
    Abraço,
    Cesar

  2. Alcione Mazur Disse:

    Marcos, gostei muito desse tema e gostaria de me aprofundar, você tem mais referências bibliográficas para indicar???

  3. marcostelles Disse:

    segue uma bibliografia em inglês:
    BELLINGER, GENE. Mental Models Musings. Disponível em: .
    BUCKLEY, W. Sociology and Modern Systems Theory. NY: Prentice-Hall, 1967.
    CHECKLAND, P.; SCHOLES, J. Soft Systems Methodology. Chichester: John Wiley and Sons, 1990.
    CHURCHMAN, C. W. The Systems Approach. NY: Dell Publishing, 1968.
    FORRESTER, J. Industrial Dynamics. Cambridge, MA: MIT Press,1961.
    GLEICK, J. Chaos: Making of a New Science. New York: Penguin Books, 1987.
    KLIR, G. An Approach to General Systems Theory. NY: Van Nostrand, 1969.
    LUCAS, CHRIS; MILOV, YURI. Conflicts as Emergent Phenomena of Complexity. Disponível em: http://www.calresco.org/group/conflict.htm.
    MATURANA, H. R. Autopoiesis and Cognition: The Realization of the Living. Dordrecht: Reidel, 1980.
    MATURANA H. R.; VARELA F. J. The Tree of Knowledge: The Biological Roots of Understanding. Boston: Shambala, 1992 (rev. ed.).
    MESAROVIC, M. D. Systems Theory and Biology. Berlin: xx,. 1968.
    MILLER, J. G. Living Systems. Colorado: University Press of Colorado, 1995.
    PRIGOGINE, I. AND STENGERS, I. Order Out of Chaos. New York: Bantam Books,1984.
    ROBERTS, E. B. [Ed.]. Managerial Applications of System Dynamics. Norwalk, CT: Productivity Press, 1981.
    SENGE, P. M.. The Fifth Discipline: The Art and Practice of the Learning Organization. NY: Doubleday/Currency, 1990.
    STERMAN, J. D. Business Dynamics: Systems Thinking and Modeling for a Complex World. NY: McGraw-Hill Higher Education, 2000.
    VICKERS, G. [Ed.]. A Classification of Systems. Yearbook of the Society for General Systems Research/Academy of Management Research, Washington, DC, 1972.
    VON BERTALANFFY, LUDWIG. General System Theory. Harmondsworth: Penguin Books, 1973.

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