No FIT Educ 2006, Miguel Nussbaum, professor da PUC-Chile e parceiro da Fundação Bradesco, falou da importância do papel destinado ao telefone celular na educação fundamental e média; para ele, o diferencial estará no fato de que, no futuro muito próximo, alunos e professores virão para a escola com pleno domínio do uso da tecnologia, ao contrário do que ainda acontece com computadores e PDAs. Ao discutir o lado do conteúdo, Nussbaum lembrou enfaticamente que, mesmo com todo o discurso sobre construtivismo, os alunos ainda são forçados a decorar um volume enorme de informações inúteis. Pedi a alguns jovens que tentassem lembrar de coisas aprendidas na escola fundamental e média que eles considerassem, hoje, absolutamente dispensáveis. A Botânica foi a mais lembrada. Afinal, você poderia ter uma nota baixa se não soubesse a diferença entre uma mono e uma dicotiledônia e, até, ser reprovado se não conseguisse explicar o que são xilemas e floemas; memórias estimuladas foram acrescentando coisas como angiospermas e gimnospermas e criptógomas e fanerógamas. A Física forneceu pérolas abundantes como a regra da mão direita do eletro-magnetismo e as misturas eutéticas e azeotrópicas além da obrigação de decorar as fórmulas da mecânica e várias colunas da tabela periódica dos elementos. Na História, as más lembranças vinham da ênfase em datas que, não raro, mascaravam um desejável foco na cronologia dos fatos e suas inter-relações. A Matemática não ficou de fora, tendo como jóia da coroa a extração de raiz cúbica sem calculadora. Seria cômico se não fosse trágico. A melhor pedagogia e a mais moderna tecnologia estão sendo utilizados para ensinar um conteúdo inadequado, é o que afirma o documento “A State Leaders Action Guide to 21st Century Skills – A new vision for education”. Recém divulgado pela “Partnership for the 21st Century Skills”, ele defende a idéia de que existe uma profunda distância entre o conhecimento e as habilidades que os alunos adquirem na escola de hoje e aquilo que eles vão precisar na sua vida comunitária e profissional no correr do século XXI. Alinhar o que é ensinado com os requisitos de sucesso neste século exigiria dar ênfase ao desenvolvimento de habilidades como: - capacidade de comunicação oral, escrita e multimídia: criação de informação em diversas mídias, capacidade de avaliar e relacionar a informação recebida, domínio pleno do próprio idioma, conhecimento de outros idiomas etc. - raciocínio e solução de problemas: análise crítica, pensamento sistêmico, relacionamento de sistemas, identificação de problemas, formulação de soluções, criatividade e curiosidade intelectual, identificação das próprias necessidades de conhecimento e aprimoramento de habilidades, capacidade de transferência de conhecimento, capacidade de aprender com os outros e trabalhar em equipe, aprender a aprender etc. - capacidade de atuar na economia entendendo os papéis na economia e as funções econômicas, situando-se no quadro econômico, preparando-se para o exercício de seu papel, fazendo escolhas econômicas pessoais bem fundamentadas etc. - desenvolvimento de uma visão global que leve à identificação de relações entre causas, à tolerância com idéias opostas e à compreensão da cooperação de amplo alcance etc. - exercício da cidadania em termos de compreensão dos direitos dos cidadão e das obrigações do Estado nos vários níveis de governo bem como da análise da repercussão das decisões governamentais etc. Para obter isso, a Partnership segue 2 linhas de ação: - sendo formada por empresas do porte de Adobe, Apple, Cisco, Ford, Dell, Intel, McGraw-Hill, Microsoft, Oracle, Pearsons, Texas e outras, ela atua na conscientização de educadores, empresários e políticos (legislativo e executivo) para que os líderes adotem uma visão inovadora do ensino e do seu papel e promovam medidas coerentes com essa nova visão (os Estados de West Virginia e Carolina do Norte já adotaram a proposta da Partnership como diretrizes de governo) - reconhecendo que os professores ensinam disciplinas como geografia, matemática e ciências e não visão sistêmica ou solução de problemas, ela ajuda o professor a integrar o desenvolvimento dessas habilidades no curriculum de suas disciplinas. O que se vê, aí, é uma firme atitude da sociedade em busca dos caminhos que vão torná-la melhor e o abandono de ações cosméticas e paliativas em favor de atividades bem estruturadas, lastreadas em conceitos sólidos e unindo propostas de ação com a criação de instrumentos que as apóiem. O que falta para a gente, também, fazer isso?
Agosto 5, 2006 às 5:56 pm
Que estamos diante da necessidade de reformas na educação não há nenhuma dúvida, e que muito do que ainda hoje se ensina na escola não faz sentido para os alunos também é verdade. Por outro lado, escolas e professores têm de lidar com currículos mínimos, conteúdos de vestibulares, etc. etc. e não é fácil mudar sistemas educativos como um todo de uma hora para outra.
De qualquer modo, vale observar que já existem iniciativas que contribuem para uma educação voltada para as necessidades do mundo atual, como estas citadas em seu post. Outra iniciativa deste tipo é o Portal Educacional, com o qual alunos da EI ao EM podem escrever livros e jornais, ou participar de projetos que promovem interação e exercício da cidadania. Os alunos comparam preços de produtos em nível nacional, criam campanhas eleitorais, partilham histórias e surpresas. Além disso, têm à sua disposição diversas ferramentas de produção on-line para realizar e divulgar os mais diferentes projetos e trabalhos. Observando essas propostas de perto, percebemos claramente que elas fazem alguma diferença para a formação dos alunos. Vemos jornalistas da 3ª série perguntando “o que é tomar providência?” ou membros-mirins de um comitê eleitoral nacional defendendo com argumentos sólidos por que o golfinho deve ser prefeito de uma Floresta on-line. Vemos alunos de EM estabelecendo as mais variadas relações entre fatos de uma determinada época ao criar linhas do tempo em multimídia, e vemos alunos reivindicando a colocação de sinais de pedestre na porta da escola por meio do seu site. Tudo isso, simplesmente oferecendo recursos, idéias e apoio para as escolas aplicarem de acordo com a sua necessidade e a viabilidade de realizar trabalhos com o apoio da tecnologia em diferentes momentos. É muito bom podermos constatar que já existem caminhos para desenvolver uma educação relevante para a criança e o jovem de hoje.
Agosto 7, 2006 às 2:23 am
O modelo educacional tradicional foi inspirado na linha de montagem, o que resultou na divisão em “séries”, no controle dos professores sobre os alunos, dos diretores sobre os professores, na ênfase em padronização e fragmentação do conhecimento etc. De lá para cá, mantivemos a mesma forma de educação, a despeito de tentativas esparsas para melhorar o atual modelo.
É preciso reinventar nosso modelo educacional se quisermos verdadeiramente atender as necessidades dos alunos e do futuro. Ter consciência das premissas que estão na base deste modelo é um passo importante para criarmos um novo modelo de educação mais integrativo e dinâmico.
Uma das grandes dificuldades que encontramos, reside na formação dos docentes. A grande maioria atuante não utiliza a tecnologia, pois não faz parte da Geração Net (Tapscott, 1998) e é com grande dificuldade que a insere na sua rotina e, se as insere (como já demanda grande dificuldade e esforço em fazê-lo), repete o tradicional linear-dominador-conteudista, utlizando menos de 10% de todo o potencial que nos disponibiliza os novos meios de construção e comunicação.
Quando os docentes são “iniciados” na tecnologia, enfrentam, na maioria das vezes, resistência dos colegas “não iniciados” e também da liderança das instituições, que em poucos casos compreendem o valor agregado das metodologias inovadoras, propiciadas pelas novas tecnologias.
Para que sejam utilizadas de maneira efetiva nas escolas é preciso desenvolver uma “cultura digital”, onde as tecnologias sejam apresentadas e analisadas criticamente pelos professores. Estes momentos devem acontecer dentro da instituição, favorecendo a formação na ação, orientando o educador para as práticas de utilização destas.
Concomitantemente ao processo de formação dos docentes para a utilização das novas tecnologias, devemos colocá-los gradativamente como responsáveis pela utilização das mesmas em suas aulas, diminuindo o acompanhamento dos técnicos e “professores de informática”, para que possam assumir o protagonismo e tirar o melhor proveito, de maneira a utilizar a tecnologia para fazer melhor e diferente.
Acredito que, com esta nova postura do professor e com o auxílio e parceria com os estudantes, que trarão para a sala de aula a mobilidade, conectividade e interatividade que já vivem em outras esferas, iniciar-se-á o movimento de mudança.
Agosto 7, 2006 às 12:10 pm
É sempre um dilema saber como transformar de forma tão abrangente a educação. Os Estados Unidos investiram pesadamente em suas universidades e hoje atraem as melhores cabeças do mundo para produzir pesquisa e desenvolvimento. A Korea e agora a China estão investindo pesadamente na Educação Básica, trazendo transformações radicais, produzindo os alunos preparados para fazer melhor proveito das Universidades americanas. Tudo isso leva muito investimento e o retorno é a longo prazo. Infelizmente não temos esses dois luxos aqui (investimento e paciência para colher resultados depois).
Podemos falar em mudar a cultura da escola, fornecer condições para os professores adotarem novas tecnologias e novas metodologias pedagógicas, como a Solange falou, ou promover projetos que encorajem a colaboração e o protagonismo do aluno, como a Betina falou, que estaremos dando alguns passos para um início de mudança. Mas são esforços isolados ainda, infelizmente.
Como podemos sincronizar o sistema educacional como um todo com a necessidade da sociedade do século XXI? Eu também tenho acompanhado o trabalho desse Partnership do Século XXI, e vejo o apelo deles para que as escolas preparem os alunos para trabalharem as habilidades e competências, que formemos cidadãos pensantes, que aprendam a aprender, que sejam tomadores de iniciativas, que saibam separar o joio do trigo nesse mar de informações.
Eu sei que só podemos fazer a nossa parte, e que já é melhor que nada. Mas sonho com o dia que aqueles que têm poder de decisão resolvam realmente causar mudanças reais e sistêmicas em todo ensino no nosso país, em todos os níveis. Sonho que eles saibam valorizar o professor como um grande agente educador, pagando o que realmente é digno. Sonho que as universidades se aliem ao ensino básico, formando uma parceria onde ambos têm muito a aprender um com o outro, e que esses dois se aliem às necessidades reais da comunidade e das empresas, trabalhando em direção ao mesmo objetivo.
Sonho que a educação transforme as decisões tomadas pelos cidadãos, e que além de aprender habilidades e competências, aprendam valores, ética, princípios e discernimento. E que tudo isso transforme o nosso país e o leve a finalmente progredir e ocupar um dos primeiros lugares no mundo, como tem o potencial de fazer.
Agosto 7, 2006 às 5:38 pm
O desenvolvimento tecnológico tem indubitavelmente contribuído para a disseminação de informação, possibilitando a um número maior de pessoas o acesso à educação, sem limitações de tempo ou espaço. O ambiente virtual torna-se nesse contexto uma grande sala de aula, onde muitos podem aprender no seu próprio ritmo, no lugar e hora de sua escolha. O propósito da educação, entretanto, é muito mais abrangente do que disseminar informação. A construção do conhecimento não se fundamenta em treinar memórias e sim em educar mentes. Conseguir reproduzir na tela os processos intelectuais que ocorrem entre professor e aluno no momento em que se dá o aprendizado torna-se, então, um grande desafio. Como professora de idiomas, gostaria de acrescentar a isso o fato de que o aprendizado de uma língua estrangeira envolve mais do que a aquisição de informação e conhecimento. Ele implica também o desenvolvimento de habilidades. Se, por um lado, o ambiente virtual dá acesso a vários recursos interativos, por outro ele também pode isolar e frustrar os aprendizes menos independentes ou disciplinados, ou ainda aqueles que dependem do estímulo do contato pessoal.
Dentro desse quadro, é fundamental discutir-se o novo papel do professor-tutor, que assume também a função de conteudista, e da equipe que o assessora na produção do material online. O profissional de educação da era da informação deve munir-se de novas competências e interagir de perto com webdesigners e programadores. É através do conhecimento do que a tecnologia é capaz de nos oferecer que poderemos fazer escolhas apropriadas para que as práticas em EaD reflitam a abordagem e metodologia que acreditamos condizentes com o aprendizado que almejamos atingir. Fica aqui a pergunta aos formadores de docentes: as universidades estão efetivamente preparando o professor do século XXI para enfrentar os desafios que estão por vir? Ao sair da universidade, que competências apoiarão o recém-formado na escolha dos modelos de trabalho e formatos de material didático adequados ao ambiente virtual?