“Qualidade de Ensino”: isso existe?

By marcostelles

A expressão “qualidade de ensino” é usada com tantas acepções diferentes que, na prática, ela deixou de ter qualquer significado; nas reuniões sobre o assunto, essa falta de clareza conceitual cria uma incontrolável babel.
No setor industrial, fala-se em “qualidade de conformidade”. Uma indústria encomenda a outra uma peça com claras especificações. Um eixo de um dado tipo de aço deve ter um certo diâmetro que pode apresentar pequena variação dimensional; se for mais fino, ele quebra e, se for mais grosso, não cabe no furo ao qual se destina. Peças em conformidade com as especificações são aceitas, peças fora das especificações são rejeitadas e a forma de verificar isso é bem definida.
Existe, também, a “qualidade de projeto”. Tanto um Fusca quanto uma Bentley transportam pessoas mas a sofisticação de detalhes da Bentley leva as pessoas a dizerem que a Bentley tem “qualidade superior” ao Fusca. Pode-se, sempre, ter um Fusca fabricado em conformidade com suas especificações e uma Bentley fora das especificações, apresentando defeitos de fabricação.
O comprador tem necessidades, expectativas e disponibilidade de recursos (maior ou menor) que influirão em sua decisão de compra. e sua postura é abrangente: ele adquire um pacote formado por características técnicas, preço, assistência técnica e emoções (coisas como “cheiro de novo”, status e senso de possuir um carro novo e não um usado).
Na área de serviços a coisa é mais complicada. Por exemplo, é muito difícil para uma pessoa saber se os médicos de um convênio são melhores que aqueles de outro convênio; a escolha acaba sendo feita em função de fatores como preço, cobertura e facilidade na marcação de consultas. De forma geral, o julgamento do consumidor final sobre a qualidade de um produto ou serviço está relacionada com a “experiência total” vivida o que, muitas vezes, depende mais de detalhes do que da essência. Em nome da proteção a esse consumidor, em áreas específicas como Medicina, Engenharia, Direito e outras, entidades setoriais procuram garantir que o profissional tenha qualificações mínimas para o exercício da profissão.
A transposição desses modelos para o ensino apresenta problemas ciclópicos, a começar pela identificação do consumidor final já que o aluno, a família, o setor profissional e a sociedade podem ter expectativas diferentes sobre “qualidade de ensino”. Dois exemplos marcantes são aquele da Austrália, onde o número de disciplinas no curso fundamental – ao contrário do que acontece no Brasil – é muito pequeno, e aquele dos Estados Unidos, onde as famílias digladiam-se para evitar ou permitir o ensino do evolucionismo. Ainda como exemplo, a definição de especificações de qualidade num país que sente a ação onipresente do Governo leva ao justificado de temor de que regulamentações oficiais sejam descoladas da realidade, incluindo a exigência de bibliotecas físicas para cursos a distância.
A “grande questão” resume-se a quatro pontos – que qualidade, para que, porque e como – que só fazem sentido quando contextualizados respeitando a diversidade. Não há, aí, espaço para generalidades. De que adianta dizer “a qualidade de ensino está baixa” se isso, em tais termos, nada significa para o interlocutor? Há diferentes necessidades a serem atendidas de formas diferentes, com distintos conceitos de qualidade cuja medida nem sempre é viável. Falar em qualidade sem esclarecer que tipo de qualidade e para que serve medi-la é perder tempo e gerar soluções em busca de problemas aos quais se apliquem. Sem dúvida, o primeiro passo é definir claramente o problema antes de propor soluções genéricas.
Questão complementar é aquela da “melhoria da qualidade”que seria mais bem definida como “melhoria do desempenho” e que é objeto de normas internacionais (ISO e outras). Essas normas não asseguram uma qualidade final do produto segundo especificações prévias; elas apenas garantem que a empresa ou instituição segue normas de administração de processos para que seu desempenho seja cada vez melhor.
Face a isso tudo, o que propomos aqui é muito simples: na próxima vez que você for falar em “qualidade de ensino”, experimente definir claramente seus termos, soluções e propostas e veja com isso é difícil; talvez, até, você resolva adiar sua fala em busca de mais coerência e mais rigor lógico. E toda vez que alguém falar de “qualidade de ensino”, peça para ela definir exatamente o que quer dizer. Essa serão duas imensas contribuições para trazer a discussão a um terreno fértil.

3 Respostas para ““Qualidade de Ensino”: isso existe?”

  1. Cristiana Mattos Assumpção Disse:

    Excelente pergunta Marcos. Acho que isso leva a uma outra discussão, que diz respeito ao papel da Escola na sociedade. Como definir qualidade sem saber objetivos? O que é educação? Será que ela ocorre só na escola?
    Eu tenho visto muita discussão a respeito da educação como um processo contínuo e que envolve todos os membros da sociedade. Começa em casa, desde os primeiros dias de vida, e se espalha pela lojinha da esquina (onde a criança aprende a contar o troco para comprar uma balinha), pela rua (onde a criança aprende a atravessar olhando para os dois lados antes), pelos amigos, colegas, etc.
    Acho que antes de definir qualidade, temos que repensar os objetivos, pois qualidade é uma medida do quanto os alcançamos.

  2. Paula Carolei Disse:

    Caro Marcos,

    Adorei seu artigo… acho que tocou em ponto fundamentais que são esquecidos., por exmplo a necessida de contextualização e não uma simples transposição da idéia de qualidade de um setor para outro.
    O grande problema como você desenhou no final do artigo é DEFINIR soluções e propostas. A pessoas resolvem TUDO no discurso.. citam autores famosos… encontram modelos que prometem TUDO e repetem como papagaio.. ficam na crítica…mas não descrevem os processos que devem ser feitos…
    Por exemplo se diz que temos que ter uma postura “DIALÓGICA” , mas a maioria dos educadores não descreve claramente as suas atividades que aplicam isso…
    Precisamos refletir, discutir, e descrever nossa prática.. e não ficar na Teoria Ideal e Vazia…

  3. Jorge Bernardo Disse:

    Marco Telles
    Também adorei o seu artigo e penso que o seu exemplo auto explica muito bem o que penso da qualidade de ensino, evidentemente que respondo que não existe a qualidade de ensino e nem sei o que é, quero pedir a sua autorização de publicar o seu artigo na íntegra e completamente identificado no meu blogue, pela qualidade da sua opinião, seja qual for a sua resposta desde já os meus agradecimentos.

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