Posts de Janeiro, 2007

Tecnologia e Ambientes de Aprendizagem

Janeiro 29, 2007

A tecnologia digital torna o “conhecimento distribuído” um conceito central para o desenho de ambientes de aprendizagem. Até há pouco, prevalecia o conceito de que o “conhecimento” de uma pessoa estava todo em sua  cabeça; em alguns casos, uma pequena parcela poderia estar em seus livros e arquivos. Hoje, fica claro que grande parte do “conhecimento” de um indivíduo está depositada em “artefatos de conhecimento” [bancos de dados, material na internet, fontes de referência, livros etc.] e na cabeça de outras pessoas [sua rede de relações]; quando necessário, a pessoa acessa esses artefatos e essa rede para poder utilizar o conhecimento de que precisa. Assim, a “unidade de conhecimento” a ser considerada não é a pessoa isolada mas, sim, a pessoa mais seus artefatos, sua rede de relações e suas ferramentas.
Nesse quadro, o ambiente de aprendizagem adquire as características de uma “ecologia” na qual as pessoas, através de suas relações com outras pessoas e com seus “artefatos de conhecimento”, podem valorizar seus “pontos fortes”, minimizar seus “pontos fracos” e, assim, criar seus “nichos” específicos.
 A eficiência desses processos, mais e mais, depende do conjunto de “ferramentas” que a pessoa utiliza. Essas “ferramentas”, na sua grande maioria criadas com modernas tecnologias, definem o grau e a forma de interação da pessoa com os recursos do ambiente; aumentar a eficiência dessa interação é uma função maior do projeto de um ambiente de aprendizagem. 
Isso pode ser feito com intervenções em, pelo menos, 3 áreas específicas: criação de novas ferramentas, criação de “nichos” individuais e aprimoramento do uso das ferramentas.  
A criação de novas ferramentas foi, até hoje, o campo de profissionais altamente especializados e totalmente focados nessa tarefa. Agora, com as comunidades open source, surgem novos horizontes pois, com um esforço muito menor e o apoio de comunidades, é possível participar do desenvolvimento de uma ferramenta de alto nível e adequada a necessidades específicas. Se alguém, por exemplo, precisa de um LMS com características especiais, ao invés de começar do zero e reinventar parte da roda, talvez seja mais fácil pegar uma roda já existente, como o Moodle, e acrescentar as funcionalidades desejadas que serão continuadamente aprimoradas pela comunidade criada em torno da ferramenta; mais e mais exemplos disso estão aparecendo e apresentando resultados impressionantes. 
A criação dos “nichos” pessoais deve ser facilitada. Um ambiente de aprendizagem eficiente estimula as pessoas a localizarem as ferramentas que podem ajudar na solução de um certo problema, a desenvolverem a capacidade de analisar essas ferramentas e a terem acesso a elas bem como propicia o contato com pessoas a serem incluídas nas redes individuais de relações. Destacam-se, aí, as atividades de difusão da inovação e as ferramentas de trabalho cooperativo e colaborativo [groupware, suporte a comunidades de prática etc.]. 
Para que as ferramentas possam ser cada vez mais bem usadas, o ambiente deve favorecer esse tipo de aprimoramento ao longo de 3 linhas: o uso funcional, a transferência de conhecimento e a análise de resultados [que inclui tanto a percepção do valor dos resultados quanto a confiabilidade da ferramenta]. É comum o sentimento de se estar usando apenas uma pequena parte das funcionalidades oferecidas por ferramentas como Word e Excel; a coisa fica mais séria quando estamos usando o Acrobat e mais séria, ainda, quando utilizamos uma plataforma de ensino. Embora conhecida e reconhecida, a tendência à acomodação é uma realidade à qual nos sujeitamos com freqüência, com conseqüências mais ou menos explícitas. Assim, é importante que o ambiente de aprendizagem ofereça condições para uma aprendizagem continuada em diversos graus de aprofundamento e que isso seja valorizado. 
Transferência de conhecimento, aqui, é entendida como o uso, em contexto diferente, de algo aprendido em um certo contexto específico.  Para que isso ocorra, a prontidão para o novo deve ser estimulada, o insight deve ser respeitado e a criatividade deve ter sua importância claramente reconhecida. Note-se que isso tudo compõe uma bem definida atitude face à experimentação e aos limites entre segurança e desenvolvimento
Por fim, o ambiente deve estimular a aplicação do espírito inquisitivo, da experiência e da lógica para a análise dos resultados do uso da ferramenta, de sua adequação a diferentes situações e da conseqüente confiabilidade que ela apresenta.
Um ambiente com essas características não só desenvolve a habilidade de detectar, criar e administrar recursos do ambiente como se enquadra perfeitamente na visão da aprendizagem como “o desenvolvimento da competência de selecionar, integrar e avaliar teorias e opiniões” em oposição à visão de aprendizagem como “aquisição e manipulação de informações” [como diz Guy Claxton no instigante livro WiseUp -The Challenge of Lifelong Learning, editado em 1999,  em New York,  pela Bloomsbury Publishing].