Eu assisto palestras com os olhos fechados; João assiste aulas picando papéis; Mário escreve tudo o que ouve; há quem estude ouvindo música e, até, vendo televisão. Cada um está usando seus sentidos de forma diferente para um mesmo objetivo: a aprendizagem. Isso é chamado de “estilos de aprendizagem”. Estudiosos identificaram dezenas de estilos de aprendizagem [leia mais sobre isso no livro “Tecnologia e Aprendizagem: tópicos de integração-Vol I” que você pode baixar, ler e enviar para amigos em www.dynamiclab.com]. Mas não se preocupe se, ao preparar suas aulas, você não costuma levar em conta os estilos de aprendizagem de seus alunos: ninguém faz isso até porque não há consenso sobre como fazê-lo e sobre se é algo que deve, mesmo, ser feito. Em 2007, o governo inglês obrigou as escolas a considerarem os estilos de aprendizagem dos alunos e a presidente do prestigioso British Institute deu uma bombástica entrevista dizendo que isso não fazia o menor sentido. Na prática, pode-se pensar em 3 posturas nesse campo: a primeira sugere que cada aula contenha elementos que facilitem diferentes estilos de aprendizagem [podendo-se, até, pensar em procurar identificar os estilos dominantes em cada classe]; a segunda diz que a coisa deve ser mais global, bastando que diferentes estímulos sejam apresentados ao longo de um percurso de aprendizagem e não em cada aula; a terceira lembra que a aprendizagem formal responde por pequeníssima parcela da aprendizagem total, que a aprendizagem informal não é planejada e que, por isso, o indivíduo está sendo, permanentemente, submetido a vários tipos de estímulos sendo, pois, desnecessário preocupar-se com isso na educação formal. Assim, o que quer que você faça estará, sempre, incluído em uma dessas linhas. Se é assim, por que falar de um campo no qual a imprecisão impera? Porque estamos lidando com a Geração Y e isso está levando muita gente ao desespero.
Convencionou-se chamar de Geração Y o pessoal nascido a partir de 1977 nos grandes centros ou nas cidades médias do países mais desenvolvidos. Seus membros são, hoje, consumidores informados,exigentes e críticos. Cônscios de seus direitos, independentes e auto-confiantes, eles querem ser ouvidos. Nascidos num período de afluência, não fazem do sucesso econômico um objetivo único e dão grande valor à qualidade de vida, ao meio ambiente e à responsabilidade social, o que contrabalança certos traços de egoísmo e hedonismo. Flexíveis, empreendedores e otimistas, agem voltados para resultados. Para eles, nativos digitais, a tecnologia é algo natural o que lhes permite ser interativos e “multi-taskers” [números bastante divulgados dizem que eles podem utilizar 5,4 canais simultâneos de informação contra os 1,7 canais da geração anterior].
Surge aí, uma primeira questão: estariam os alunos desse grupo pressionando os professores para utilizar mais tecnologia? A resposta parece ser um claro “não”. O aluno mais velho quer ser respeitado e quer sentir que o professor trabalha um curriculum de evidente utilidade para sua futura profissão e que se preocupa em encontrar a melhor pedagogia para ajudá-lo a aprender, com ou sem tecnologia. O professor que ministra aulas convencionais nesses padrões é muito mais considerado que o professor que lê power-points recheados de filmetes do youtube [sim, há professores que fazem isso!]. A postura do aluno é fortemente contextualizada e resulta em diferentes expectativas quanto à disponibilidade e uso da tecnologia em diferentes momentos e diferentes locais como sala de aula, espaços públicos, casa etc. Assim, a pressão do aluno não aparece como fator de mudança nessa área.
A segunda questão surge naturalmente: teria a Geração Y um estilo de aprendizagem tão característico e tão forte que obrigaria o professor a mudar o formato de suas aulas para torná-las eficientes? Como vimos acima, não cabe falar num estilo de aprendizagem da Geração Y; mais preciso seria considerar suas características comportamentais. E aí a resposta é mais complexa: é evidente que a forma tradicional de ensino está em choque com a flexibilidade e a turbulência do mundo real; por isso, o professor tem que mudar a maneira de ensinar e, mesmo não precisando usar tecnologia para isso, pode beneficiar-se muito da tecnologia para tornar suas aulas interessantes e produtivas. Não se trata, pois, de uma pressão explícita do aluno em favor do uso da tecnologia mas do nascimento de uma pedagogia adequada às características psicológicas e sociológicas das gerações mais novas.
Duas coisas decorrem disso tudo: o processo de adoção da tecnologia tem que ser baseado na pedagogia e em claros e modernos requisitos de aprendizagem e o uso da tecnologia na educação não é um processo que se possa alicerçar numa simples relação de demanda e oferta estabelecida entre aluno e professor; na prática, ela exige planejamento e forte liderança no interior das instituições. De fato, para serem autônomos, os processos de mudança precisam nascer de forte insatisfação com o statu quo vigente e, positivamente, isso ainda não aconteceu nesse campo.
1/4/08