A edição 2048 da revista Veja divulgou pesquisa recente segundo a qual 90% dos dados em sites de grande acesso nos Estados Unidos são divulgados sem embasamento científico.
Isso vem ao encontro da tese de Andrew Keen que, em seu livro “The Cult of the Amateur”, apresenta algumas idéias extremamente instigantes.
A primeira delas diz que jornais e revistas têm repórteres treinados, editores experimentados, diretores e diversos procedimentos que garantem a qualidade da matéria publicada e, assim, a reputação do veículo. Na ausência desse tipo de filtros, a tarefa de avaliar a veracidade e a exatidão de uma informação na internet transforma-se numa missão impossível para comuns mortais. A simples tentativa de fazê-lo requereria volume indisponível do mais precioso de nossos recursos que é o tempo.
Ao longo da mesma linha, é muito difícil manipular as informações publicadas por órgãos reputados da imprensa, ao contrário do que acontece na internet onde o anonimato permite todo o tipo de desinformação e mal informação. Qualquer pessoa pode, sem risco maior de punição, colocar um vídeo enganoso na internet ou defender seus próprios interesses num blog publicado sob nome falso.
Outros autores, a partir desses conceitos, discutem as formas de fazer com que as pessoas consigam trabalhar o oceano de informação existente [information literacy]; Keen segue um caminho diferente: ele acha que o que está em jogo é a própria tessitura social.
Tudo começa quando, com pressa, você aceita a primeira informação oferecida pela internet sem mesmo conhecer os critérios que levaram o Google a colocá-la no topo da lista e sem ter qualquer informação sobre sua origem. Mas não pense que você é um caso isolado; na verdade, você é um caso típico como bem o demonstram estudos feitos a respeito com base no comportamento de animais selvagens em busca de alimentos [foraging].
De fato, a dificuldade de pesquisar e comparar fontes leva muitas pessoas a tornarem habitual o procedimento acima, o que gera uma queda da qualidade do conhecimento em relação ao recurso usual a fontes confiáveis. Num círculo vicioso, isso estimula o uso da internet com o propósito de deturpar fatos e idéias. Como a internet é cada vez mais usada como fonte de informação, teremos uma sociedade cada vez mais mal informada e trabalhando com dados de qualidade duvidosa.
Note-se que a atividade escolar estimula isso quando leva os alunos a recorrerem mais e mais à interrnet sem prepará-lo para avaliar a qualidade do material encontrado.
Essa vitória da facilidade sobre a qualidade tem outras conseqüências. Dentro do espírito da “cauda longa”, com inúmeras pessoas publicando e postando filmes e músicas na internet, está-se criando a idéia de que “um milhão de amadores conectados produzem material de melhor qualidade do que especialistas em salas fechadas”.
Keen não é um ludita, não quer voltar no tempo e não nega o valor do atendimento a nichos mas ele é feroz na luta contra a extrapolação de conceitos para justificar muita coisa perniciosa que está acontecendo.
Em especial, ele teme o agravamento de alguns efeitos que já começam a aparecer: bandas desconhecidas postam música ruim mas de apelo fácil que, por poder ser baixada sem maiores problemas, acaba competindo com a indústria musical estruturada. Esse fenômeno social, numa espiral crescente, soma-se à pirataria e altera padrões, reduz a dimensão daquela indústria e a produção de música de qualidade. O mesmo vale para jornais, revistas e livros.
Para Keen, tudo isso acaba, também, gerando uma versão moderna da postura “o que cai na rede é peixe”, agora na forma de “o que está na rede é meu”. Essa declaração explícita de louvor ao desonesto, que cria uma cultura de “copiar e colar” e de leniência face ao crime, não só tem conseqüências imediatas como, ainda, ameaça distorcer os valores morais como um todo.
Tenho um amigo brilhante que critica Marx por ter ele entendido tão bem o capitalismo mas não ter ficado rico. Keen não incide nesse erro e, convencido da crescente dificuldade de vender livros bons, carrega nas tintas de seus argumentos e exibe vitriólica acidez nas palestras que faz. A reação é proporcional e as críticas a ele tendem a perder a serenidade e o foco.
Alguns críticos mais sérios, porém, lembram que talento é dom escasso. Assim, a facilidade de publicação em novos espaços tem um efeito colateral perverso: a produção de uma enxurrada de material de baixa e baixíssima qualidade nem sempre identificável como tal de maneira simples. Soma-se a isso, acrescentam, o fato de que nenhuma sociedade pode absorver as propostas de uma revolução; vencendo a revolução, muda a sociedade. A internet veio para ficar mas temos que evitar o perigo de ver nela uma panacéia universal e temos que encará-la como aquilo que ela realmente é: um grande desafio com propostas de mudança social. A má notícia é que esses problemas vão crescer e que ajustamentos a mudanças sociais são demorados.
O que a escola pode fazer, a curto prazo, para ajudar a evitar uma grande catástrofe? Pelo menos, três coisas:
- enfatizar, de forma explícita e rígida, os princípios de respeito à moralidade e aos princípios legais [direitos e deveres],
- reconhecer a existência de um processo de mudança permanente e adotar a postura flexível e conduzir as ações requeridas por coisas como o surgimento de novos padrões de linguagem, a diversidade de interesses e os formatos emergentes de relacionameto [inclusive entre aluno e escola] e
- trabalhar novas competências ainda pouco discutidas como é o caso da competência de armazenar informação [onde, mesmo, eu coloquei aquele arquivo que baixei ontem?].
Sim, fácil de dizer e muito difícil de fazer. Coisa que leva os trabalhos de Hércules a parecerem brincadeira! Mas para chegar a fazer diferença é preciso começar e esses podem ser três bons primeiros passos.
Não atrapalharia, ainda, ter em mente o que disse Alvim Toffler: “o analfabeto do século XXI não será aquele que não souber ler e escrever mas, sim, aquele que não souber aprender, desaprender e reaprender”.
Maio 30, 2008 às 5:42 pm
Grande Marcos, os posts demoram, mas quando chegam são um livro!
Sabe, eu estou com um livro prontinho, fechando para ser publicado, título (provisório): “Filosofia da Computação e da Informação”, e nele discuto bastante esta questão da busca de informações na Internet, o excesso de informação disponível etc. Tema muito atual e pertinente, parabéns!
Julho 5, 2008 às 2:08 pm
Telles,
Assusta-me, sim, a possibilidade de se postar qualquer material na internet, revestido de um ar de seriedade.
Contudo, tenho pensado ultimamente que mais assustador é ter o universo ao alcance de um dedo, que reúne também e em maior quantidade tudo que o homem produziu com qualidade, consistência e beleza.
Hoje me assusta muito mais pensar que há quem simplesmente não tenha acesso ou que, tendo, não o faça.
Penso que o desafio que se impõe aos educadores é o de conduzir o aluno por esta floresta de saber, intocada em alguns de seus aspectos. Para isso, é preciso gostar de recomeços, ter prazer em engatinhar, arriscar e descobrir.
Para isso, mais que ensinar, é preciso estar disposto a aprender, principalmente com os alunos. Ensinou-nos Paulo Freire a começar pela realidade deles. Quem percebe o outro erra menos. Já pensou como são ilimitadas as possibilidades para um educador apaixonado?
Comecei há 40 anos com quadro negro, giz e livros adquiridos e preservados a custa de muito sacrifício. Há 15 anos, apaixonei-me pelas transparências em powerpoint. Hoje explorar com sensibilidade o datashow, no ambiente físico, e o Moodle, no virtual, é tudo com o que jamais sonhei.
Trabalho com adultos, profissionais de todas as áreas, dentro e fora das instituições. Não poderia haver melhor ocupação do que a de tomar a mão do meu aluno e conduzi-lo por uma estrada que o leve a um aprendizado permanente.
Surpreende-me o fato de que, a distância, individualizo mais do que em sala de aula: cria-se um campo de diálogo, discrição e cumplicidade. Acompanho-o no processo de criar raízes, ao mesmo tempo em que lhe crescem asas. Vejo-o, pouco depois, sujeito autônomo, soltar a minha mão e correr muito mais e bem mais longe do que fui capaz.
Melânia Costa – educadora e jornalista. Belo Horizonte/MG
Novembro 10, 2008 às 5:49 pm
É comum ver pessoas normais cometendo crimes(independente do nível criminal, algo que na vida real ele não cometeria) no meio virtual, justamente por falta de educação e conhecimento sobre as consequências. muitos dos criminosos virtuais pegos pela Cyber police coreana dizem “não ter noção ou percebido o tanto de gravidade das suas ações cometidas”, de um modo geral eram pessoas normais como empregados, estudantes e até advogados. Isso demonstra, até então na terra avançada em termos de internet que é a coréia do sul, a necessidade de ensino sobre este novo meio desde cedo, ou melhor um novo ambiente de vida.
não sei se é do seu conhecimento, no Brasil mesmo, neste momento, há crianças de 10 a 13 anos, ou adolescentes de 14 a 18 anos, “roubando” informações de contas de acesso (email, jogo, portal, banco) , simplesmente imitando um vídeo ou manualzinho qualquer obtido na internet, utilizando alta tecnologia de TI que é o vírus do tipo keylogger. Com certeza, essa molecada não sabe o que está fazendo. Apenas correm loucamente para uma direção em um ambiente que não é aquela que ele conhece.
Jung Kim
Dezembro 10, 2008 às 1:52 am
precisa de figuras